Inter-relação digital e analógica no tratamento restaurador

Inter-relação digital e analógica no tratamento restaurador

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Tratamento restaurador: caso clínico complexo traz detalhes de tratamento de desgaste dos dentes naturais por hábito parafuncional.

Planejar um tratamento restaurador não é um procedimento simples. Pelo contrário, são diversos os aspectos funcionais e estéticos a serem verificados, sendo que a não observação de um detalhe pode levar ao insucesso do caso. O próprio fato do paciente precisar de um tratamento restaurador deve ser questionado. É importante ter em mente que esse procedimento atua na sequela, ou seja, na recuperação do elemento dental, e não propriamente no fator que originou o dano.

Neste artigo, descrevemos um caso clínico complexo e nada incomum (Figuras 1), que é o desgaste dos dentes naturais provocado por atrição1-2 resultante de hábito parafuncional, que não será resolvido com o tratamento restaurador. Esse problema deverá, no mínimo, ser monitorado e controlado para evitar danos futuros que comprometam a longevidade do tratamento.

O ponto de partida é a coleta de todos os dados, incluindo anamnese, exames clínico, periodontal e radiográfico completos, moldagem e montagem de modelos de estudo em articulador semiajustável, bem como fotografias extra e intraorais.

As fotografias e referências faciais – como linha mediana, linhas que passam pela asa do nariz e também o contorno do lábio inferior – ajudam a determinar qual seria o posicionamento espacial ideal dos dentes anteriores. Este posicionamento espacial é o comprimento e a inclinação dos dentes anteriores superiores (Figura 2). Este projeto digital permite ainda conseguir medidas exatas de aumento ou redução dos elementos dentais, quando necessárias.

As medidas obtidas através do projeto digital dão a orientação inicial para que o enceramento de diagnóstico seja realizado em modelos de estudo montados em articulador semiajustável (Figuras 3). Quanto mais preciso e fiel a este projeto o enceramento de diagnóstico for, mais fácil será atingir um resultado final favorável. Neste caso específico, foi necessário aumentar a dimensão vertical de oclusão, que é um procedimento muito bem documentado na literatura3, para promover melhor harmonia dentofacial, além de prover espaço adequado para o material restaurador que irá restabelecer a estrutura dental desgastada pelo hábito parafuncional.

A impressão do enceramento de diagnóstico com silicone de adição permite maior fidelidade aos detalhes e, quando carregada com resina bisacrílica (Figuras 4), passamos da fase de planejamento virtual para o teste real, em cavidade oral, o qual chamamos de mock-up. Desta maneira, antes que algum preparo dental seja realizado, é possível avaliar tanto o formato final das restaurações como o novo relacionamento interoclusal.

Para a confecção do mock-up em cavidade oral, a preferência dos autores é pela técnica de preparação da superfície dental através de ataque com ácido fosfórico durante 30 segundos em esmalte e aplicação de adesivo universal. Desta forma, a resina bisacrílica ficará aderida aos dentes – mais firme e resistente – e, quando separada dente a dente, permitirá que o paciente use fio dental (Figuras 5). Esta técnica também possibilita um período maior de permanência e avaliação do mock-up em cavidade oral, o que é muito interessante, principalmente quando é necessário o aumento de dimensão vertical de oclusão. Após aprovado, o mock-up bem realizado pode e deve servir como guia (Figura 6), tanto para os preparos dentais (Figura 7) como para a confecção das novas restaurações finais (Figura 8).

Todas as restaurações foram confeccionadas em dissilicato de lítio (Figuras 9 a 11) e maquiadas após acabamento e polimento. Para dentes anteriores superiores e inferiores, foram feitos laminados cerâmicos. Em posteriores, somente na superfície oclusal foi realizada uma fina lâmina, chamada table top. O paciente foi orientado e incentivado a utilizar placa oclusal durante o sono e, quando acordado, monitorar a atrição com o intuito de evitar hábitos parafuncionais.

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REFERÊNCIAS

  1. van’t Spijker A, Kreulen CM, Creugers NH. Attrition, occlusion, (dys)function, and interventor: a systematic review. Clin Oral Implants Res 2008;19:326-8.
  2. Grippo JO, Simring M, Schreiner S. Attrition, abrasion, corrosion and abfraction revisited. A new perspective on tooth surface lesions. J Am Dent Assoc 2004;135(8):1109-18(quiz 1163-5).
  3. Calamita M, Coachman C, Sesma N, Kois J. Occlusal vertical dimension: treatment planning decisions and management considerations. Int J Esthet Dent 2019;14(2):166-81.

Franco Mallaguti

Franco Ignáccio Mallaguti
Especialista em Periodontia e Dentística pela ABO-GO; Especialista em Implantodontia pelo Instituto Brånemark, Bauru; Mestrando em Implantodontia pela São Leopoldo Mandic, Campinas.

 


José Geraldo Malaguti
Especialista em Prótese Dentária pela APCD/Araraquara; Especialista em Periodontia pela Aorp; Especialista em Implantodontia pela PUC-Campinas; Doutor em Implantodontia pela USC.