Sombras acinzentadas após a instalação de implantes: o que são e como tratar?
Guaracilei Maciel Vidigal Júnior aborda as sombras acinzentadas após instalação de implantes.

Sombras acinzentadas após a instalação de implantes: o que são e como tratar?

Compartilhar

Guaracilei Maciel Vidigal Júnior mostra que as sombras acinzentadas não são incomuns e analisa duas opções de tratamento.

A mudança de cor da mucosa sobre implantes, que provoca sombras acinzentadas (Figura 1), infelizmente não é um fenômeno incomum. Isso ocorre frequentemente porque há pouco osso e mucosa fina na vestibular do implante. Como a maioria dos sistemas de implantes é feita de titânio, as superfícies metálicas não refletem a luz com a mesma eficiência que as superfícies das raízes, proeminentes na maioria das vezes na área estética, e que funcionam de forma semelhante a um espelho, refletindo quase toda a luz incidente que atravessa a fina mucosa. Ao contrário das superfícies radiculares, as superfícies dos implantes metálicos absorvem todas as cores que compõem o feixe luminoso e refletem somente a luz de sua própria cor – no caso, cinza. Este fenômeno é mais intenso quanto mais fina for a mucosa.

Para evitar a formação de sombras em áreas estéticas, atualmente existem duas alternativas de tratamento: a utilização de implantes cerâmicos e a cirurgia de enxerto de tecido conjuntivo (ETC). Vamos analisar as duas opções.

Os implantes cerâmicos têm o potencial de minimizar o problema das sombras acinzentadas porque são confeccionados de zircônia, um material que apresenta propriedades óticas favoráveis, tais como: cor clara, alto índice de refração e baixo coeficiente de absorção da luz.

Entretanto, no momento, a segunda geração de implantes cerâmicos não possui estudos clínicos longitudinais para assegurar eficiência e segurança em longo prazo. Os primeiros implantes totalmente cerâmicos foram instalados nas décadas de 1980 e 1990. Na época, foi utilizada a cerâmica de óxido de alumínio (alumina). Em um estudo clínico longitudinal de dez anos de acompanhamento, estes implantes apresentaram as seguintes taxas de sucesso em períodos de três, cinco e dez anos: 100%, 100% e 97% na mandíbula; e 58,1%, 44,2% e 44,2% na maxila1. Todos os implantes se tornaram osseointegrados e as falhas ocorreram por complicações biomecânicas, sendo a fratura do implante a principal complicação.

Apesar dos materiais cerâmicos possuírem elevada dureza, a baixa elasticidade os torna sujeitos à fratura, ou seja, eles apresentam baixa capacidade de absorver parte da energia através da deformação plástica, antes de sofrer a fratura. Por isso, os implantes instalados na maxila sofreram elevada taxa de insucesso. Podemos fazer uma analogia desta situação clínica pensando em uma lâmina fina de vidro totalmente apoiada sobre uma mesa de madeira (semelhante à situação dos implantes instalados na mandíbula). Ao aplicar uma força considerável sobre o vidro, ele não quebrará. Mas, se colocarmos a lâmina de vidro sobre dois cavaletes (situação análoga à da maxila, pelo osso não ser tão denso quanto o da mandíbula), a aplicação de uma leve carga poderá quebrar o vidro (no estudo clínico, os implantes fraturaram).

Na segunda opção, o aumento da espessura da faixa de tecido conjuntivo da mucosa através da técnica do ETC (Figuras 3 a 5) pode atenuar ou até eliminar as sombras acinzentadas na mucosa. Ao comparar as Figuras 1 e 5, é possível perceber o imediato desaparecimento da sombra após o ETC, pois o aumento da espessura do tecido conjuntivo fará com que parte dos raios da luz incidente seja absorvida pela mucosa espessa e a outra parte dos raios da luz seja refletida pela própria mucosa, mostrando a sua cor original (Figura 6). Além disso, as sombras acinzentadas denunciam a presença do fenótipo fino, que torna as margens gengivais mais propensas à retração no médio e longo prazo. Portanto, a realização do ETC altera o fenótipo tecidual de fino para espesso, diminuindo ou mesmo impedindo as retrações2.

Uma série de estudos sobre a espessura da mucosa vestibular2 mostrou que a determinação clínica do fenótipo gengival apresenta um elevado grau de imprecisão, especialmente nos valores próximos (0,8 mm a 1,3 mm) ao valor considerado como limite entre o fino e o espesso (1 mm). Por isso, uma importante questão clínica se apresenta: no planejamento para instalação de implantes imediatos em áreas estéticas, devemos ou não fazer sempre o ETC?

REFERÊNCIAS

  1. Fartash B, Arvidson K. Long-term evaluation of single crystal sapphire implants in fixed prosthodontics. Clin Oral Impl Res 1997;8(1):58-67.
  2. Kan JYK, Rungcharassaeng K, Morimoto T. Facial gingival tissue stability after connective tissue graft with single immediate tooth replacement in the esthetic zone: consecutive case report. J Oral Maxillofac Surg 2009;67(11 suppl.):40-8.

GuaracileiGuaracilei Maciel Vidigal Júnior
Especialista e mestre em Periodontia e Doutor em Engenharia de Materiais – Coppe/UFRJ; Livre-docente em Periodontia e especialista em Implantodontia – UGF; Pós-doutor em Periodontia e professor adjunto de Implantodontia – Uerj.
Orcid: 0000-0002-4514-6906.