Enxaguante bucal auxilia na prevenção à Covid-19?
A segurança do profissional da Odontologia é essencial neste momento. (Imagem: Shutterstock)

Enxaguante bucal auxilia na prevenção à Covid-19?

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Marco Bianchini compartilha conteúdo de artigo científico e debate a eficácia do enxaguante bucal pré-atendimento em relação ao coronavírus (Covid-19).

Na última semana, eu tive o prazer de receber um paper (carta ao editor do periódico Clinical Oral Investigations) que teve a participação da professora Alessandra Rodrigues de Camargo, minha colega do Departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina. O conteúdo deste paper é bastante interessante para nós, cirurgiões-dentistas, e iremos discuti-lo na coluna de hoje, envolvendo enxaguante bucal e Covid-19. E também o disponibilizamos aqui, na íntegra, para os interessados em ler todo o artigo e suas referências.

A identificação de que a síndrome respiratória aguda grave coronavírus-2 (SARS-CoV-2) é um vírus transmitido pelas vias aéreas ou pelo contato direto com as mucosas deixou a comunidade odontológica em alerta. A sensação foi de que a Odontologia enfrentaria um desafio extraordinário, já que a nossa profissão não apenas expõe o profissional a um contato extremamente próximo com as vias aéreas do paciente, mas também utiliza procedimentos dentários que causam a produção de aerosóis, que podem potencialmente contaminar várias superfícies, sejam elas do paciente ou do próprio consultório.

Desta forma, o uso de equipamentos de proteção individual (EPI) e a desinfecção de superfícies tornaram-se os itens mais importantes na prevenção do contágio em nossas clínicas. Estudos demonstraram que, na ausência de qualquer procedimento de desinfecção, o SARS-CoV-2 tem uma meia-vida de 6h a 8h em uma superfície plástica e de 5h a 6h em uma superfície de aço inoxidável. Por outro lado, sua meia-vida foi estimada em 1,1h em ambientes em aerosol.

Pesquisadores observaram, também, que o coronavírus humano em superfícies inanimadas pode ser inativado usando-se etanol (62-71%), peróxido de hidrogênio (0,5%) ou hipoclorito de sódio (0,1%) durante um minuto, enquanto outras substâncias como o cloreto de benzalcônio (0,05% e 0,2%) e o digluconato de clorexidina (0,02%) seriam menos eficazes neste combate.

Em março de 2020, um estudo publicado no International Journal of Oral Science trouxe informações sobre as rotas de transmissão e possíveis estratégias de controle na prática odontológica. Ele serviu como guia de conduta para cirurgiões-dentistas em todo o mundo, incluindo a indicação para uso de enxaguatório bucal com 1% de peróxido de hidrogênio e 0,2% de iodopovidona. Parece que o uso destas substâncias diminuiria a probabilidade de infecção entre os profissionais.

Este estudo sugeriu que um enxaguatório bucal antimicrobiano pré-operacional reduziria o número de micróbios orais. A clorexidina, que é comumente usada como enxaguatório bucal na prática odontológica, poderia não ser eficaz para matar o 2019-nCoV, uma vez que este vírus é vulnerável à oxidação. Assim, os autores recomendaram um enxaguante bucal pré-procedimento, como agentes oxidantes a 1% de peróxido de hidrogênio ou iodopovidona a 0,2%, com o objetivo de reduzir a carga salivar de micróbios orais, incluindo o potencial transporte de 2019-nCoV. Este enxaguatório bucal pré-procedimento seria mais útil nos casos em que o dique de borracha não pode ser usado.

Porém, como tudo que sabemos deste vírus vem sendo derrubado, a ideia de que o SARS-CoV-2 seria vulnerável à oxidação, segundo alguns autores, não parece basear-se em evidências científicas sólidas e vem sendo criticada pelo fato de poder causar danos ao paciente, como riscos de broncoaspiração e alergia ao peróxido de hidrogênio e iodopovidona. Além disso, a degradação do peróxido de hidrogênio, que ocorre nessas soluções, acabaria criando bolhas que podem ser comparadas com aerossóis, o que aumentaria o risco de transmissão.

Além destes aspectos, outros autores também afirmam que, embora não haja dúvidas da presença do vírus na cavidade oral, também é consenso que este mesmo vírus se replica com mais frequência e facilidade no epitélio pulmonar do que na saliva. Isto, de certa forma, reduziria a necessidade de se realizar bochechos com soluções antissépticas antes dos procedimentos, e sugeriria que o contágio na Odontologia não seria tão alto.

Mesmo com todas estas controvérsias, países como Brasil, Espanha e Portugal têm recomendado bastante o uso de soluções antissépticas pré-atendimento, especialmente estas à base de peróxido de hidrogênio e iodopovidona. Parece que estas soluções podem reduzir a quantidade de partículas virais na cavidade oral, sugerindo que essa abordagem diminuiria a probabilidade de infecção entre os profissionais e a contaminação do ambiente. Porém, ao comparar a descontaminação de superfícies inanimadas com a superfície da mucosa, a indicação dos enxaguatórios pode causar confusão entre os profissionais, com efeitos indesejáveis nos protocolos de saúde estabelecidos para a pandemia.

As diversas áreas da Saúde continuam na luta incansável contra a Covid-19. Ainda temos mais dúvidas do que certezas. Provavelmente, teremos mais erros do que acertos. Porém, é certo que devemos pecar pelo excesso em vez de negligenciar protocolos. O uso de enxaguantes pré-atendimento já faz parte da nossa rotina de atendimento há décadas. Assim, se necessitamos apenas mudar o antisséptico que estávamos acostumados a usar, na esperança de diminuirmos o contágio, devemos, sim, adotar este protocolo até que ele seja derrubado por outro mais eficaz.

Referências

  1. Peng X, Xu X, Li Y, Cheng L, Zhou X, Ren B. Transmission routes of 2019-nCoV and controls in dental practice. Int J Oral Sci 2020;12(1):9.
  2. Kampf G, Todt D, Pfaender S, Steinmann E. Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with bio- cidal agents. J Hosp Infect 2020;104(3):246-51.
  3. Xu H, Zhong L, Deng J, Peng J, Dan H, Zeng X et al. High expression of ACE2 receptor of 2019-nCoV on the epithelial cells of oral mucosa. Int J Oral Sci 2020;12(1):8.
  4. To KK, Tsang OT, Leung WS, Tam AR, Wu TC, Lung DC et al. Temporal profiles of viral load in posterior oropharyngeal saliva samples and serum antibody responses during infection by SARS-CoV-2: an observational cohort study. Lancet Infect Dis 2020;20(5):565-74.

“Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; despertai e exultai os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos. Vai, pois, povo meu, entra nos teus quartos e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um momento, até que passe a ira. Porque eis que o Senhor sairá do seu lugar para castigar os moradores da terra, por causa da sua iniquidade, e a terra descobrirá o seu sangue, e não encobrirá mais os seus mortos.” (Isaias 26, 19-21)

Marco BianchiniMarco Bianchini
Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros “O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia” e “Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares”.
Contato: bian07@yahoo.com.br | Facebook: bianchiniodontologia | Instagram: @bianchini_odontologia