Equipamentos e medicamentos essenciais para o consultório odontológico
Eduardo Dias de Andrade traz os equipamentos e medicamentos essenciais para o consultório. (Foto: divulgação)

Equipamentos e medicamentos essenciais para o consultório odontológico

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Emergência médica: Eduardo Dias de Andrade conta quais equipamentos e medicamentos são fundamentais para a clínica odontológica.

Na clínica odontológica, apesar de incomuns, as emergências médicas devem ser interpretadas como um acontecimento perigoso ou situação crítica, que pode até mesmo colocar em risco a vida do paciente¹-².

Compete ao cirurgião-dentista reconhecer e instituir medidas de pronto atendimento frente às emergências, lembrando que ele está sujeito não somente à Lei 5.081, que regulamenta o exercício da Odontologia no Brasil, mas também às leis supremas do Código Civil, Código Penal e Código de Proteção e Defesa do Consumidor (como prestador de serviços), que preveem penalidades para os atos de imprudência, negligência ou imperícia².

Perante um quadro emergencial, não haverá tempo hábil para o socorrista rever conceitos teóricos, ou seja, toda uma sequência de cuidados e manobras deverá estar memorizada e protocolada, para ser colocada em prática imediatamente.

Para tal, é imperativo que o profissional e a equipe auxiliar estejam habilitados a prestar os primeiros socorros. Devem, no mínimo, estar treinados em Suporte Básico de Vida (SBV), instituindo procedimentos que garantam a ventilação pulmonar e a circulação sanguínea da vítima até que ela possa receber cuidados médicos avançados, quando necessários².

O que se constata, porém, é que ainda muitos profissionais não buscam treinamento em SBV, tampouco para sua equipe. Também não dispõem de equipamento básico e de um mínimo arsenal terapêutico para lidar com as emergências médicas em suas clínicas, com base no argumento – por sinal equivocado – de que “comigo elas nunca irão ocorrer”.

O reconhecimento, por parte dos pacientes, de que se encontram em um ambiente seguro para serem tratados, aliado à aptidão do cirurgião-dentista em identificar e reagir de imediato a qualquer intercorrência, não deixa de ser um grande diferencial na profissão.

No comércio, alguns “kits de emergência” estão disponíveis para venda aos profissionais da Odontologia¹. Embora bem idealizados, eles podem conter certos equipamentos e medicamentos de valor questionável em um consultório odontológico, em virtude da formação médica limitada do cirurgião-dentista e pessoal auxiliar. Por exemplo, incluir soluções injetáveis de uso exclusivo pela via intravenosa não seria de grande valor caso os socorristas não saibam administrá-las por esta via. Da mesma forma, um laringoscópio não é essencial para aqueles que não estão suficientemente treinados na técnica de intubação orotraqueal. O mesmo se aplica ao desfibrilador externo semiautomático (DEA), empregado em caso de parada cardiorrespiratória, pois, apesar da facilidade de manuseio, ainda apresenta um custo médio alto, em torno de R$ 8 mil.

O equipamento essencial para as emergências, aqui apresentado, pode ser entendido de duas maneiras: a primeira, que deva ser personalizado, de acordo com suas próprias habilidades, ou seja, não se deve incluir todos os medicamentos, aparelhos e dispositivos descritos a seguir, caso não possua treinamento ou segurança para empregá-los.

A outra forma de pensar é a de que vale a pena investir na montagem de um aparato completo para que, em uma emergência grave, com risco de morte, sejam proporcionadas as mínimas condições de trabalho a pessoas habilitadas que porventura possam contribuir no atendimento do socorrido².

APARELHOS E DISPOSITIVOS

  1. Monitor para avaliar a pressão arterial (PA) e frequência cardíaca (FC): indispensável para monitorização destes parâmetros cardiovasculares em uma situação de emergência. Pela praticidade, é crescente o uso do método oscilométrico, por meio de monitores digitais semiautomáticos de braço, que avaliam a PA e a FC em praticamente um minuto. As sociedades de cardiologia e hipertensão arterial têm validado alguns destes monitores, quando for constatada uma correlação positiva e concordância com os valores registrados em aparelho de coluna de mercúrio calibrado³;
  2. Sistema portátil para liberação de oxigênio: equipamento empregado sempre que a hipoxemia estiver presente (ex.: lipotimia, síncope, sobredosagem de anestésico local, convulsão, crise aguda de asma, anafilaxia, crise de angina, infarto do miocárdio etc.). A respiração enriquecida com oxigênio aumenta a tensão arterial deste gás, melhorando a oxigenação dos tecidos periféricos².

O sistema pode ser transportado facilmente de um local para outro dentro do ambiente do consultório. Deve incluir uma cânula ou cateter nasal, que permite a administração suplementar de oxigênio a um paciente que respira espontaneamente, e uma máscara facial, para uso em pacientes com alteração da consciência ou dificuldade respiratória;

  1. Oxímetro de pulso portátil: monitor não invasivo que avalia continuamente a saturação da hemoglobina do sangue arterial (SpO2). Muito útil no monitoramento de pacientes sedados ou com história de anemia ou insuficiência respiratória². No caso de parada cardiorrespiratória, pode monitorar a eficácia das ventilações de resgate, como parte da reanimação cardiopulmonar;
  2. Glicosímetro: dispositivo portátil que permite, em cinco a dez segundos, avaliar a glicemia. É um equipamento auxiliar importante no atendimento de pacientes diabéticos (tipo I ou II), particularmente quando houver suspeita de quadro de hipoglicemia aguda, estando a vítima consciente ou inconsciente²;
  3. Máscaras de proteção: desenvolvidas para auxiliar o socorrista em casos que necessitam de respiração boca a boca. Dispõe de válvula de segurança contra refluxo, que impede o retorno de ar e contato direto com a boca da vítima, evitando assim o hipotético risco de contaminação;
  4. Desfibrilador externo semiautomático (DEA): dispositivo que analisa o ritmo cardíaco de uma vítima que não respira e sem pulso palpável. Por meio de dois eletrodos autoadesivos (pás), conectados ao tórax, o aparelho determina a necessidade de choque elétrico para reversão dos ritmos de fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso. Após análise, administra uma descarga elétrica controlada que despolariza, temporariamente, um coração que esteja pulsando de forma irregular, permitindo, assim, que uma atividade de contração mais coordenada se reinicie². De operação bastante simples, o DEA orienta o socorrista com comandos de voz, complementados por sinais sonoros e comandos visuais. O Samu e outros serviços móveis de urgência geralmente dispõem deste equipamento, quando requisitados para auxiliar no socorro de uma vítima.

MEDICAÇÃO NAS EMERGÊNCIAS

As principais situações de emergência foram tratadas de forma pormenorizada em nove artigos de edições anteriores da ImplantNewsPerio (volumes 2 e 3, de 2017 e 2018, respectivamente), indicados para melhor compreensão do risco clínico de cada uma delas e cuidados preventivos.

Os protocolos de pronto atendimento também incluem o tratamento farmacológico, quando indicado. Nem toda intercorrência requer o uso de drogas ou medicamentos. Cabe aqui apenas apresentar um kit de emergência, contendo a medicação (Quadro 1) e os acessórios para administração (Quadro 2) em adultos4.

QUADRO 1 – MEDICAÇÃO DE EMERGÊNCIA PARA A CLÍNICA ODONTOLÓGICA DE ADULTOS, COM O NOME GENÉRICO E ORIGINAL DA DROGA OU MEDICAMENTO, VIA DE ADMINISTRAÇÃO, APRESENTAÇÃO COMERCIAL E INDICAÇÕES DE USO
Obs.: 1. A solução injetável de epinefrina 1:1000 não está disponível para venda nas farmácias. Sua aquisição junto aos distribuidores é restrita. A comercialização via CPF é permitida para profissionais que possam responder pelo uso desse medicamento, como médicos, médicos veterinários e cirurgiões-dentistas, tendo a obrigatoriedade de enviar a cópia de suas carteiras profissionais por meio do e-mail (vendas@hospitalardistribuidora.com.br). Para pessoas jurídicas (CNPJ), deverão ser enviadas as cópias do Alvará Sanitário, Certificado de Regularidade Técnica e o Contrato Social; 2. A embalagem original da solução injetável de epinefrina 1:1000 é comercializada na forma de uma caixa com 100 ampolas. Se os distribuidores ou farmácias hospitalares concordarem em dispor de uma ampola (mediante identificação e justificativa do uso pelo profissional), ela deverá ser armazenada em uma temperatura de 150 a 250 C e envolta em papel alumínio, pois a epinefrina é fotossensível e deteriora rapidamente em contato com a luz. Periodicamente, a data de validade da solução deve ser verificada, assim como a das demais drogas e medicamentos.

QUADRO 2 – ACESSÓRIOS PARA A ADMINISTRAÇÃO DE SOLUÇÕES INJETÁVEIS

REFERÊNCIA

  1. Rosenberg M. Preparing for medical emergencies: the essential drugs and equipment for the dental office. J Am Dent Assoc 2010;141:Suppl:14S-19S.
  2. Andrade ED, Ranali J. Emergências médicas em odontologia (3a ed.). São Paulo: Artes Médicas, 2011.
  3. Nobre F et al. 6a Diretrizes de monitorização ambulatorial da pressão arterial e 4a Diretrizes de monitorização residencial da pressão arterial. Arq Bras Cardiol 2018;110(5):Supl. 1:1-29.
  4. Andrade ED, Quintana-Gomes Jr. V, Ranali J. Equipamento de emergência. In: Andrade ED, Ranali, J. Emergências médicas em odontologia (3a ed.) São Paulo: Artes Médicas, 2011, p.163-70.

Eduardo DiasEduardo Dias de Andrade
Graduado, mestre, doutor, livre-docente e professor titular na área de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica – FOP/Unicamp. Autor dos livros Terapêutica Medicamentosa em Odontologia e Emergências Médicas em Odontologia.
Orcid: 0000-0001-8889-2194.